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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Liquidação

Até um tempo atrás, quando se queria depreciar um roqueiro, bastava dizer:´"é um vendido!"

A grande ironia é que agora que ninguém mais vende CD, a não ser, talvez, o camelô pirateiro da porta do banco, quase todos os astros do rock não passam de uns vendidos.

sábado, 14 de abril de 2012

É ou não é, eis o raio-x da questão

O escritor brasileiro é aquele sujeito que passa horas pelejando com as palavras, e que só se levanta com a sensação de dever cumprido depois que compara os seus próprios esforços ao que de melhor produziram os grandes imortais da literatura universal. Satisfeito por não se julgar inferior, ele finalmente nota os roncos nada modestos da sua barriga autoral, e deixa a casa para ir entubar um hot dogão na esquina. Ao passar pelos vizinhos, tira o chapéu para cumprimentá-los. Quando o escritor brasileiro some, virando a esquina, todos comentam exatamente a mesma coisa que a crítica literária vem declarando há anos a seu respeito: “esse cara só pode ser um débil mental!”

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Facetruques

Rede social é um local cheio de pessoas sem nada para dizer, mas que ficam dizendo uma montanha de coisas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dando um upgrade em Warhol



No futuro todos serão famosos por apenas R$ 15,00.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Um Sonho


Só me lembro de dois fragmentos deste sonho, ambos perturbadores.

No primeiro estou andando na rua e vejo um dos primeiros quadros que pintei na vida destruído, atirado na calçada como lixo.

O segundo fragmento é muito pior. Estou deitado na cama (em meu antigo quarto na casa dos meus pais) e no canto próximo à janela, sentado numa cadeira, vigiando-me silenciosamente, há uma figura, inteiramente coberta por panos e tecidos brancos, uma espécie de burca branca.

No mesmo instante em que comecei a dizer as terríveis palavras: "É o anjo da morte", acordei, com a palavra anjo ainda escoando de meus lábios.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mantras


Cansaço, tédio, marasmo nunca mais. É preciso reinventar a roda. Sair da casca podre da rotina. Ser. Crescer. Nascer todas as manhãs.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Retorno



Acabado o carnaval, o ano de 2012 finalmente pode começar. Mas o Brasil inteiro já começa de ressaca, com o pé esquerdo e faltando dois dias para o fim de semana.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Domingão do Fastio

A falta de cultura dos pobres me assusta. A falta de cultura entre pessoas da classe-média me entedia. Mas a falta de cultura da nossa classe dominante me enoja.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Ceia

A grande lembrança do final do ano passado foi a festinha de Natal, familiares bebendo todos juntos, situações embaraçosas na certa, como o longo discurso de um primo, velho comunista, glorificando a múmia de Fidel Castro e reafirmando Cuba como o paraíso na terra.

Tudo bem acalentar utopias, mas não deliremos. Cuba é a última gaiola do mundo em que ainda se encontra vivo o Socialismo, animal mais extinto que o dodô no resto do planeta.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Naftalina

Analisando fotos beeeem antigas, chego à conclusão de que preciso, com urgência, dar uma renovada no meu guarda-roupa. Várias peças usadas nos anos 90 sobreviveram nas gavetas e convivem com as roupas mais recentes (que são bem poucas). Ou seja, há décadas venho usando os mesmos trapinhos.

Dá para notar que não sou, exatamente, compulsivo com roupas, como sou com livros e filmes. Aliás acho chato ter que escolhê-las nas lojas ou para sair. Não ligo a mínima para o assunto moda, embora aprecie o visual de pessoas elegantes. Sei que a maioria das pessoas prefere gastar dinheiro e tempo investindo em itens que ornamentam a vaidade pessoal. Mas eu chuto o balde. Não ligo para griffes badaladas e adoro camisetas básicas de algodão.

Lembro de um amigo radical, que amava tanto literatura, mas tanto, que deixava de comprar roupas, e às vezes até passava fome, só para poder comprar os últimos lançamentos literários. E de um outro amigo, seu oposto perfeito, que nunca tirou sequer carteira da biblioteca na universidade, e que tinha mais de 46 pares de calças jeans.

Francamente, não estou em nenhum desses dois extremos. Mas admiro quem tem paixão por suas próprias  obsessões, ainda que consumistas. O importante, ainda que não exista felicidade, é se sentir feliz por alguns instantes. Como roupas novas fazem a alegria de muita gente, vai ver nasci para ser nudista.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Filmes, Cores e Preconceitos


Passei a seguinte proposta de redação para os meus alunos: escrever sobre o seu filme favorito.

As escolhas deles geralmente recaem sobre (bons) filmes mais ou menos recentes: Titanic (1997), O Perfume - História de Um Assassino (2006), Um Amor Para Recordar (2002), O Cavaleiro das Trevas (2008). Mas noto uma certa resistência e até mesmo preconceito, da parte deles, de assistirem filmes clássicos, em preto-e-branco.

Em primeiro lugar: o preto-e-branco. Haverá coisa melhor em fotografia cinematográfica que o jogo de luz e sombra dos filmes noir, inspirada no expressionismo alemão? Eu amo incontáveis filmes clássicos em preto-e-branco como O Terceiro Homem, Psicose, Os Boas Vidas, Nosferatu, O Mensageiro do Diabo, Cidadão Kane, A Sombra de Uma Dúvida, A Palavra, Através do Espelho, O Homem Elefante, etc. Privar-se de tais filmes é privar-se da arte do cinema.

Eu amo igualmente certos filmes recentes que adotam com muita beleza e maestria a fotografia PB: Control (2007), Sin City (2005) ou A Fita Branca (2009).

Não poderia deixar de mencionar um filme que extrai sua extraordinária poesia justamente do contraste entre a fotografia PB e a cores: A Vida em Preto e Branco (1998).

Não consigo entender pessoas que têm preconceitos de cor, mesmo que seus preconceitos se limitem a filmes.

Os alunos aproveitaram para me perguntar qual o meu filme favorito. Os anos passam, mas o mais impressionante dos filmes continua sendo o estupendo Magnolia (1999), de Paul Thomas Anderson.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Morte da Leitura


Para concluir o ano letivo, passei uma tarefa bem prosaica para os meus alunos: ler alguns contos de renomados escritores brasileiros (Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, etc), contos a partir dos quais eles deveriam fazer uma apresentação.

Pois bem. Os meus alunos adolescentes (do Turno Vespertino) desencumbiram de forma hilária a tarefa, apresentando um dos contos sugeridos (Canibal, do Moacyr Scliar) em formato de peça teatral. Dois alunos surdos-mudos chegaram até a se fantasiar de mulher para fazer seus papéis. Percebi que muitos alunos da turma estavam excitadíssimos com o trabalho. Mas quando eu pedia para eles explicarem o que entenderam do texto lido, eles embatucavam.

Já os alunos da noite, que são todos adultos, diga-se... nem sentiram vontade de ler os contos. Com a honrosa exceção de um aluno, os demais não se dignaram a ler e ainda reclamavam, dizendo que ler cinco páginas de texto era demais: uma tarefa impossível.

Avisei-lhes que o meu livro favorito - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust - tinha 3.300 páginas. Isso não me impediu de ler o livro inteiro, três vezes. Eles disseram: "Ah, mas o senhor é inteligente" e "Mas o senhor é professor", como se somente eu fosse "inteligente", ou como se só professores fossem capazes de ler.

Não se trata aqui da morte da leitura, simplesmente, tão anunciada aos quatro ventos nestes tempos de Internet e de predomínio do audiovisual. O que presencio todos os dias naquela sala de alunos adultos desmotivados é algo ainda mais grave: a absoluta degradação da nossa educação... e da nossa língua.

Sim, a língua que nos confere unidade e identidade cultural tem se tornado ela mesma fator de exclusão. Fico abismado com a falta de leitura das pessoas e suas justificativas absurdas para não lerem. "Ler demais deixa as pessoas doidas", este é o consenso e o veredito entre meus alunos. E tantos pensam assim que deve ser um lugar-comum entre milhões de brasileiros analfabetos ou semiletrados. A decadência de uma língua - escrita ou oral - marca a decadência de um povo. Portanto, a estagnação da linguagem oral e escrita entre estudantes maranhenses é mais um sintoma da estagnação política, econômica e social de nosso estado.

domingo, 18 de setembro de 2011

Schadenfreude

Schadenfreude é uma palavra alemã que dá nome ao sentimento de prazer diante da desgraça alheia. Não há uma só palavra em português para traduzi-la, mas o sentimento é um velho conhecido.

Um miúdo exemplo. Na semana passada, na escola pública onde trabalho, a vice-diretora me contou em plena sala de aula que um garoto, na quadra esportiva, apanhou um pedaço de pau e com ele atingiu a cabeça de uma garota, que foi levada, toda suja de sangue, às pressas para o hospital.

A reação de muitos outros alunos? Riam deliciados. Como se o sofrimento e o sangue alheios fossem as coisas mais divertidas do mundo.

Schadenfreude, portanto. Sentimento cruel, tão conhecido que chega a ser corriqueiro e banal, como a própria vida humana, nos corredores das escolas públicas maranhenses.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Tabletes

Os chamados tablets dificilmente emplacarão no Brasilzão de meu Deus, ainda que os preços barateiem, por um simples e prosaico motivo: livro, digital ou de papel, é um troço que não faz parte das necessidades básicas do brasileiro.

Quer dizer, o povo consumista pode até comprar o tal iPad. Mas vai usar para quê? Pra bater fotos e postá-las no Facebook, claro. Francamente, acho mais divertido jogar biriba. Quem nunca teve um cérebro agora tem milhares de cérebros eletrônicos em rede, todos empregando o mesmo tatibitati infantil como vocabulário: "blz, vlw, bj, rsrs"...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A mortalha do peixe

O jornalismo praticado no Maranhão tem, pelo menos, essa utilidade: serve para ensinar como não se deve escrever.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Vazio

Nada dá uma sensação de vazio maior que concluir a escrita de um livro. Terminar uma transa, te enche da famigerada tristeza pós-coito, e um funeral pode te render sensações variadas como choque, dor, alívio ou alegria. Um livro não, quando finalmente concluído, só deixa atrás de si um silêncio imenso.

A única forma de preencher esse silêncio é começar um novo livro. Imediatamente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Parada de Insucessos

Lula teve sucesso ao eleger sua sucessora. Mas o governo atual é, para muita gente, uma sucessão de desastres. A política da tolerância à corrupção, apoiada pelo Congresso, é a única considerada benéfica à saúde política presidencial. Sucesso faria Dilma entre essa bandalha se prometesse dar um cala-boca na imprensa.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Escadas safadas


Vou ao Banco do Brasil, na Deodoro, fazer um pagamento qualquer sem ser por meios eletrônicos, e... que surpresa, o boca do caixa, cujo atendimento é feito por gente de carne e osso que nem eu e você, leitor, fica ali no subsolo, escondidinho como uma marmota. O acesso para lá é feito através de íngremes escadas. Pois bem, desci as ditas cujas.

Mas na minha frente havia duas senhoras bem idosas, e as coitadas apresentavam sérias dificuldades para descerem as benditas escadas. Imagina subirem aquilo tudo de volta. Era a pedida para um ataque cardíaco. O segurança, solícito, ajudou as velhinhas a descerem. O que me levou a pensar: "Segurança de banco serve ao menos para segurar as velhinhas na escada, evitando que elas caiam". Fiquei pasmo que não houvesse elevadores ali no Banco. E os cadeirantes, então, como ficam? Têm que ser segurados com cadeira e tudo pelo segurança? Onde estavam as rampas de acesso especial?

Perguntei à moça que me atendeu no caixa o que achava dessa situação, e ela detonou a própria agência e seus (ir)responsáveis: "O acesso aqui é totalmente irregular, mas enquanto um não se acidentar ou morrer ninguém faz nada pra mudar..."

Pois é. Um banco desses só podia levar o nome do nosso país.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Adesivo

No domingo, li, na traseira de um automóvel, o seguinte adesivo: "CAOStelo".

São Luís não é uma ilha: é um trocadilho.

Cidade em que, como diz uma amiga minha, "ninguém é prefeito".

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Férias: contagem regressiva

Daqui a exatos sete dias eu entro de férias, mas não pretendo viajar (pelo menos não me planejei para isso), e sim vagar sem qualquer propósito, em dolce far niente, zanzando por nossas praias poluídas, salas de cinema, bares, inferninhos, livrarias (cada vez há menos)... etc

Ou seja: viajar ao redor do meu próprio umbigo.

Mas também vou me dedicar mais a livros, discos, filmes, vinhos, amigos, etc. E postar mais, afinal a pressa do dia a dia e o corre-corre do batente não permitem que este blogue seja tão assíduo como eu gostaria.

Obs: Alegria de pobre dura nada. Volta e meia minha chefa materializa-se, assustadora, na minha frente, pedindo para eu trabalhar algum dia de sábado ou durante a primeira quinzena de julho... Por isso eu creio que a escravatura nunca foi abolida no Brasil.